Jornada: conto autoral

Distante daquilo que outrora fora, Ella esforça-se para romper a ventania que insiste em surrar seu rosto. O caminho é escorregadio e a subida muito árdua. As grandes fendas nas rochas não lhe servem de abrigo ou aconchego; são apertadas, mal lhe cabe. Resta-lhe subir. Seus braços, demasiadamente cansados, só obedecem o comando daquela força impetuosa que lhe diz: . E ela sabe que, em algum lugar, poderá finalmente encontrar descanso.

Não olhe para baixo. O nevoeiro se formava e ela já estava nas alturas. Seria covardia ceder ao desejo involuntário de olhar para o abismo? Quanto ainda falta? Quanto já subiu? A dor em seus braços está insuportável e os pés não encontram apoio certo. 

Ella não podia… não poderia deixar que aqueles pensamentos a esmagassem. Quanto mais se deixava levar pela voz suave daquela tentação, que mansamente lhe dizia “apenas solte as mãos”, mais pesado sentia o corpo. Parecia ouvir as risadas de seus irmãos enquanto corriam em torno da mesa. O aroma adocicado do bolo que acabara de sair do forno, das mangas, do abacaxi. Risos… ela estava em casa? Onde estava? O som, lentamente… dissipava.

Por pouco sua imaginação lhe fizera desvanecer, contudo, um vento gélido a trouxe à tona. E quando se deu conta, a subida acabara. Com a visão ainda embaçada pôde contemplar os próprios pés: solados gastos, bem firmados no chão. Abriu ambas as mãos e, ao observá-las, viu que já não tremiam, o sangue circulava, os calos latejavam e, o simples movimento de abrir e fechar lhe fizera perceber que apesar da longa jornada tudo acabara bem. 

Diante de si um vasto bosque de esplendorosas árvores. Os raios de sol acalentavam seu rosto abatido, devolvendo-lhe o vigor. Valeu a pena, e como valeu! Que sublime! Quão belo era aquele lugar. Ella podia gritar, e o fez, ajoelhando-se e tocando a grama. Um tato macio entre os dedos, o aroma de orvalho…. Ella rompeu em lágrimas, de alegria. O medo fora seu único obstáculo por todo esse tempo, entretanto… algo glorioso finalmente ocorreu. Podia sentir em seus poros a grande poesia que é viver! Adiante, uma nascente, uma cachoeira e os vagalumes a esperavam. E esse era um simples fim de tarde entre tantos outros fins de tarde que a abraçariam.

Logo o sol iria se pôr.

— K.

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