Lizzy: um conto de tragédia e fantasia

No mundo de Lizzy as emoções eram sentidas de modo assombroso. Era incontrolável aquela sensação esmagadora de inalar cada partícula ao ponto de afundar e afogar-se em si mesma.

“Em si mesma…” será que realmente sofria dos próprios problemas? A verdade era que ela não vivia apenas para si mesma. Lizzy habitava em dois mundos, e sempre foi assim. Todavia, era quando esses mundos se cruzavam que ela, como uma esponja, tragava vorazmente aquela bebida de caos que a destruía. Ah, o caos… este que tanto lhe fizera companhia. Embebedava-se com aquela sorte, e em cada tentativa de encontrar-se, Lizzy perdia-se ainda mais.

Desde cedo descobriu que seus olhos não estavam simplesmente voltados para este mundo. Enxergavam além, e estavam fitos no infinito e no desconhecido. Conhecia assim a dolorosa sensação de buscar o inatingível, com seus curtos e frágeis braços.

A insustentável fraqueza de Lizzy a fazia desejar a mais absoluto isolamento. Tudo largar, estar só. Finalmente ir embora, espiar o outro lado do rio. Porém, sabia que metade de si permanecia ali, naquele mundo, não deixando-a escapar. Poderia, então, partir para longe na tentativa de encontrar-se? As pessoas depositavam sobre suas mãos toda a confiança e os tesouros mais escondidos. Confiavam a ela os mistérios e o oculto de suas almas. Eles a amavam e Lizzy… sentia suas dores. Era mais forte que tudo. Podia mergulhar em seus corações e tomar a dor ao ponto de sobrar apenas um fragmento de seu ser. E após voltar seus olhos para o Eu, perguntava-se: esta dor é realmente minha?

Ao lidar com os deste mundo, Lizzy permitia-se entrar em seus labirintos emocionais. Uma força impetuosa a impulsionava para as fendas e brechas daquele local. Sabia muito bem o terror que a aguardava ali mas, por conhecer o caminho, se disponibilizava à acompanhá-los. Eles tremiam de medo, mas ela os guiaria até a saída, como uma Beatrice* das prosas dantescas.

Contudo, o que Lizzy sempre esquecia era que seus pés estavam firmados naquele estreito lugar. Seus olhos conheciam aquela escuridão, não havendo como libertar a si mesma. “Mas conduzi todos à saída…”, lembrava ela, ali, presa. 

“Não quero me importar com nada ou ninguém. Desejo partir!”, gritava ao contemplar o ferrolho em seus pés. Ainda assim, ninguém a ouvia. Ela libertou-os de suas amarras, mas por toda a vida não conseguia soltar-se das próprias. Resta-lhe colorir as paredes daquele labirinto, de modo tal, que, ao olhar com delicadeza, poderia enxergar a mais pura beleza.

E o fez.

Pintura tão vívida que Lizzy passou a acreditar que ali mesmo, dentro daquele labirinto estreito, existia um mundo inteiro! Agora não mais era um cubículo medonho. Era terra encantada, de liberdade e ar puro, onde pássaros entoavam suas mais doces melodias. Lizzy e seu mundo eram imensidão. 

Todavia, do lado de cá, tudo não passava de imaginação. A Lizzy de cá continuava a observar seu reflexo vil e de aspecto débil e ingênuo, do outro lado, que sem conhecer a figura que a observava permitia-se rir e brincar. Brincadeira que rompia o mundo físico do taciturno observador.

A Lizzy de cá conhece a ilusão criada por aquela figura infantil. Mas permanece em silêncio. E como ser materno e compreensivo, que vê sua cria a colorir livremente, longe da corrupção externa, ela suspira e diz:

“Deixe-a brincar”

— K.

*Beatrice Portinari foi provavelmente a figura histórica que inspirou Dante Alighieri na criação da personagem Beatriz, em sua obra “Divina Comédia” (séc. XIII). Ele a amava, embora nunca tenha, de fato, estado ao lado dela. Portanto era um amor platônico e inacessível que finalmente teve chances de concretizar-se na literatura. No livro-poema, Beatriz é responsável por guiar os desafortunados no Purgatório, próximo à região Etérea (que é próximo ao Paraíso), a fim de que obtenham expiação por seus pecados. Assim ela conduz ao sonhado Paraíso.
Lemony Snicket, escritor de “A Series of Unfortunate Events” (Desventuras em Série), usa a referência de Beatrice como sendo a amada perdida do narrador da história e, que até hoje, permanece sendo um mistério aos olhos dos leitores.

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