Nomofobia do avesso

Perdi as contas de quantos dias, semanas ou meses estou sem celular. Raras vezes retornei ao uso e, quando o fiz, foi por poucas horas. Nesse ínterim não me desesperei. Descobri que não me faz tanta diferença assim ter ou não um celular. Ou melhor, sinto falta de fotografar os encantos diários, e algo dentro de mim grita que estarei perdendo boas memórias e registros caso não fotografe isso ou aquilo, a exemplo da sensação vivida na última madrugada que passei em claro, com aquele lindo amanhecer às 5h e seus tons de nascente pincelando o alto do coqueiro em meu quintal. O momento foi tão único que ainda me sinto mal por não ter registrado aquela imagem. Também não lembro a última vez que registrei a imagem de uma folha, besouro ou trilha de formigas e, admito, é uma sensação estranha e ao mesmo tempo libertadora olhar para o aparelho desligado e não me sentir ansiosa por isto. Ultimamente fotografo a lua de modo imaginário, traçando com as mãos o formato de um retângulo. E *tich*, registrado.

Sempre tive certa facilidade em sumir e passar longos meses sem me comunicar por redes sociais e, não se espante, pessoalmente também. “Oi sumida, tá viva?” é o que costumo ouvir e, concluo que esta estratégia de enclausuramento não é coisa recente. Quanto mais turbulenta está minha mente mais almejo sumir de vez, subir uma montanha, fingir que nada de errado está acontecendo no mundo exterior. Contudo, isto não é sempre possível. A vida real chama, o noticiário lembra do caos diário e o calendário insiste em informar que o tempo está passando, e bem mais rápido que meu ritmo mental.

Não me conheço e provavelmente nunca chegaria perto disso de qualquer forma, mas sei onde estou e para onde quero ir, embora viva a por isso em dúvida. Tenho um atraso de nascença, no entanto. Um atraso que, como diria Manoel de Barros, preza pelas coisas desimportantes da vida. 

Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim um atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato
de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.

Me sinto ansiosa todas as vezes que abro uma rede social ou, pior ainda, quando preciso falar com alguém ao telefone. Acredite se quiser, mas tenho longas conversas imaginárias com meus amigos. Minha mente é um chat de alter egos e amigos conversando em situações hipotéticas. É tudo uma mentira, eu sei. Por que simplesmente não lhes envio uma mensagem? Porque junto com esse imenso prazer de estar com eles vem também a famigerada ansiedade que citei. Falta de ar, mente a mil, dar conta de me dedicar a várias conversas, pensar no que preciso fazer no dia seguinte etc. O prazer cansa, é a verdade. Qualquer tipo de emoção um tanto intensa, cansa. Dizem que essa sensação de isolamento e melancolia é típico de vestibulando. Ufa, espero que passe então.
Okay, sei que é o reflexo intrínseco à eras modernas e tecnológicas…

Continuando. Rede social é a nova mesa redonda de políticos, celebridades, intolerantes, pseudo-intelectuais, debaters, fingidos e gente comum. Há muito deixou de ser lar ou refúgio para mim, a exemplo do Twitter, onde sabemos de primeira mão tudo o que acontece por aí a fora. É o hipocentro de toda a tensão que surge na internet atual. A fadiga me toma a cada vez que abro esse site, como uma caixa de pandora. Se por um lado há queridos amigos que aprendi a amar por outro há toxicidade. Não é atoa que o advento das redes sociais traz consigo infinitos déficits, como a intensificação do estado de depressão, estresse e bolhas virtuais, além da manipulação dos algoritmos que, estudando o comportamento e gostos pessoais dos usuários, traçam um “perfil” de modo a mostrar pessoas e assuntos que cabem em nosso gosto pessoal. E assim esta bolha que nos cerca cresce e cresce, afastando-nos cada vez mais dos que pensam diferente de nós e dos eventuais embates de ideias oriundos dos conflitos que, por vezes, é sim saudável para nosso desenvolvimento. 

Não escolhi “desligar o celular”, ele simplesmente deu defeito e não funciona mais. *Risos confusos*. Larguei de mão e esqueci-o na gaveta, sem tentar ressuscitá-lo na base do ódio. E aproveitando esse momento de tumulto, estou resiliente, correndo com estudos e focando em coisas urgentes; tentando — em vão — não deixar que o tempo escape pelas mãos. Não são raras as vezes que ensopo meu travesseiro de lágrimas ou passo o dia com os ombros tensos, a mandíbula travada e a respiração tão curta que só percebo isso quando as lágrimas estão caindo sem que eu perceba. “O que eu tenho?”, é quando noto o problema, embora não me dando a chance de parar e refletir (porque sei que isso demora e não tenho tempo para o “trabalho” no momento). 

É interessante como não me conheço e ainda assim cuido tão amorosamente de mim mesma. Me abraço, converso comigo mesma, me ofereço conselhos, me perdoo, avalio minhas ações, jogo para bem longe o rancor, etc., sempre barrando o raciocínio quando o problema em questão é o emocional. Por que a negligência? É provável que eu não saiba. Mas um dos motivos é bem simples: quando admito um problema em mim, reconhecendo seus males, não consigo mais encará-lo sem tentar resolver tudo, transformando meu modo de ser. E se entendo que não tenho tempo ou armas para resolver aquilo, espero mais um pouco até surgir a finalmente suficiente para cortar o mal pela raiz. Ninguém vai para a guerra apenas com uma faquinha de passar manteiga no pão. O embate pede calma, preparo e coragem.

O correr da vida embrulha tudo. A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem. — Guimarães Rosa

Ou talvez tudo isto não passe de desculpas que inventei para adiar a resolução das coisas. Talvez uma pegadinha psicológica que diga que não me encontro pronta ou com energias, que vai dar errado caso eu tente. Autossabotagem? Vício do pensamento? Talvez seja o medo do diferente, do frágil e da vulnerabilidade que habita em mim. Ainda assim acredito ter o direto, por hora, ao menos, de permitir adiar um pouco mais. Só peço a Deus um pouco mais de tempo e de vida para conseguir essas tantas coisas que almejo no mais profundo de meu ser. Talvez essas coisas não venham, no entanto. Meu amparo estará em saber que me movi, saí do lugar e, como em um eterno devir, as coisas continuam a se transformar. Quem sabe numa dessas pausas, entre uma transformação e outra, a autora aqui descubra seu valor. O que sei, por enquanto, é que essa descoberta se encontra bem distante das redes sociais. É, decerto, uma nomofobia do avesso. Ou simplesmente enfado diante deste mundo moderno.

— K.

Nomofobia: é a fobia causada pelo desconforto ou angústia resultante da incapacidade de acesso à comunicação através de aparelhos celulares ou computadores. … É um termo muito recente e tem origem nos diminutivos ingleses No-Mo, ou No-Mobile, que significam sem telemóvel. (dicio.com.br)

Conheça mais sobre o assunto e suas variantes nestes links:
1. Nomofobia: vício em dispositivos móveis pode levar à depressão
2. O que é nomofobia? Entenda sobre a síndrome da dependência digital

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