Causos desimportantes sobre Arlete dos Santos

Abril, 2001
Vivia no interior do Piauí, numa cidadezinha tão pequena que o pantim do bruguelo no fim do bairro podia ser facilmente percebido por Arlete dos Santos, que morava bem na divisa, rente à porteira. E que perturbação tão grande, todos os dias essa criança chorava um choro esquisito. Devia estar com barriga d’água ou é coisa de mau agouro, do coisa ruim. Seu santo que a perdoe, mas certa estava ela de que aquele menino não passaria daquela noite. Não fora batizado, tadinho, não houvera tempo. O sinhô padre andava tão ocupado. Muito fi de doutô para batizar.

Novembro, 2004
Arlete dos Santos estava a tecer tapetes, sob a luz amarela da lâmpada prestes a queimar. Piscava toda hora, mas sem dinheiro para trocar. Tá bom demais, a lua ilumina. E é cheia, dia do sétimo filho do sétimo filho por as fuças à mostra. Seu José vivia a repetir as histórias de quando um bicho metade hômi e metade cão o perseguira na praia. “Tinha pé de porco, o tinhoso”, narrava seu Zé. Nesses tempos modernos até lobisomem tem pé de porco. Valha-me Deus, as coisas tão tudo mudada. 

Novembro, 2011
No dia onze do onze de dois mil e onze, a neta de Arlete, menina galega, que vivia na cidade grande, chegou de passeio com uma caixa grande de muito peso. Um tal de microondas o qual puxou tanta energia que acabou sendo o responsável por um pipoco no poste ali da frente. Arlete dos Santos entristeceu-se, queria muito experimentar a tecnologia desconhecida. [Por sorte, e para sua felicidade, hoje em dia a energia é de qualidade. Ela tem microondas, geladeira das boas e até mesmo uma tevê pequena, por onde assiste suas novelas diariamente.] Aquele quengo véio e raparigueiro traiu de novo a bichinha da protagonista. É bem assim na vida da gente, ou se é corno galhudo ou se é galinha. Mas pode até ser que os donzelos é que estão todos certos no final. Gente dá trabalho e se não é pra viver nos conformes, melhor ficar só.

Junho, 2012
Arlete dos Santos desde moça gosta de escrevinhar. Mandava cartinhas de amor para seu Zé, ele protestante e ela católica roxa, mas sempre se entenderam, aprendendo que o menino Jesus era o mesminho. Seu Zé sempre foi um homem bom para com Arlete, trabalhador, canhoto e com manias estranhas de andar em círculos enquanto pensava. Sempre assinava suas cartas acompanhado de um coração tremido do canto da folha. Foi por isso que Arlete se apaixonou e vivem juntos até hoje, após mudarem-se com a família toda para o mesmo bairro da cidade grande onde vive também a menina galega [que hoje está de cabelo colorido por causa dessas modas da juventude. Embora reclame e resmungue, Arlete lá no fundo até que gosta daquela cor azulada].

Setembro, 2012
Ela não tem muita coisa, vive da aposentadoria sua e do seu Zé e de vender alguns bolos, broas ou tapetes tecidos à mão. Seu Zé, agora com a cabeleira quase toda branca e caída, vive de ler de tudo, conversar com os vizinhos e consertar coisas que não precisam de conserto. Todos sabem que é pro tédio não lhe comer o juízo.

Outubro, 2017
Arlete dos Santos ganhou um vestido novo, florido e de malha do jeitinho que gosta. Muito foi elogiada pela família e sentiu-se feliz feito pinto no lixo. Quis ir para a praça e comer churros como nos tempos de outrora. Seu Zé e ela riram, rememorando tempos idos e vividos com muito amor. Depois de certa idade se vive de memórias. Ou se tem memórias ou não se é nada. É o que acha. Por isso conta e reconta as mesmas histórias, de novo e de novo, coisa que é muito do importante para manter vivo o que ainda resta de alegria. É bem verdade que no fim da vida há de se ficar abobado e reflexivo. Sorte de quem chega até lá.

Janeiro, 2019
Arlete estava aguando as flores da frente de casa, tão bonitas estavam que deixou-se velejar na imaginação, observando os passarinhos que cantavam no muro sempre àquela hora da manhãzinha. Pensava na infância que, na falta do que comer, trabalhava para ajudar mãe e irmãos. Mesmo em idade avançada ainda se lembra da voz de sua mãe dizendo “ô fia, traz cá um cafézinho pra mãe” e, depois de uma pausa, acrescentava, “teus patrão te pagaram hoje, minha fia?”. E lágrimas brotavam nos olhos de Arlete dos Santos. Caiam junto com a água saída dos furos do regador, silenciosa e repleta de histórias. Perdeu a mãe cedo. É sempre cedo quando se ama muito. Criou os filhos, e estes criaram os netos. Graças a Deus estão em melhores condições de vida do que ela na mesma época, que só aprendeu a ler e escrever para enviar cartinhas ao seu Zé e, em troca, entender as palavras do mesmo. Muito tinha gosto pela vida, e, embora com um cadinho de tristeza brotando do fundo peito, parou de aguar, entrou na cozinha e tirou o assado do forno. Era domingo, dia de Reis.

— K.

03.10.2019

Nota: As personagens e eventos são fictícios, podendo ou não representar eventos reais da vida da autora ou histórias que ouviu e/ou testemunhou.
Obrigada Grazi e Nahiza, por betarem este texto e por todas as dicas e gentileza.

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