Novembro: devaneios

Momentos atrás cheguei numa conclusão: finjo sofrer de indecisão para adiar os conflitos consequentes de minhas escolhas. São tantos baques. Preciso escolher o que doerá menos. A verdade é que a dúvida, em si, não é a vilã.
A uma semana estou naquele estado de ansiedade anormal além de dores constantes no estômago que me acordam durante a noite. Crises de choro também. O pior é que conheço as raízes da maioria dessas emoções que me afligem e ainda assim opto por não encará-las, adiando mais um pouco, cometendo o ato burro de achar que o monstro varrido para debaixo do tapete um dia não ganhará força suficiente para puxar meu pé. *risos de nervoso*.
Meses atrás assisti a um vídeo intrigante no canal do Cortella. Dizia que, no passado, por falta de oportunidades, as pessoas acabavam seguindo caminhos “pré-determinados” com maior frequência. Enquanto nos tempos hodiernos, padecemos justamente por termos de escolher entre muitas coisas como se nossa vida dependesse disso. Erros não são permitidos?

Gatos doentes, família doente, finanças num caos, reforma da casa, ansiedade pela espera dos resultados de vestibular, uma amiga que está para casar e não poderá ter minha presença, saudades dos amigos, uma viagem importante que desejo realizar, tempos estranhos, medo acerca do futuro e, uma certeza: sou apenas uma pessoa comum tentando viver a vida de maneira bonita. De intenso tenho pouca coisa, talvez nada. O que mais me perturba nessas horas é que não consigo projetar imagens belas em minha imaginação. São em momentos assim que não me contenho, tudo ao redor escurece e não consigo expressar para os outros o melhor de mim. A sociedade tem sido local hostil, e eu, me sinto forasteira nela. Gostaria de enxergar o mundo com um olhar mais otimista e puro, como antes. No entanto, sinto que minha fé na vida tem se esvaído como água entre os dedos. Então canto até a garganta doer, observo o céu, desenho, escrevo, oro as orações já esquecidas. O sono então torna-se mais leve e, os sonhos, mais felizes. Na manhã seguinte a dor volta e o ritual se repete, tento fazer algo novo.
Não, não se engane, não padeço de tristeza, em mim há uma alegria suficiente. As crises existenciais vêm do desejo de ser vulnerável (apenas um pouquinho) em um local seguro, que abrace-me e não trace elogios duvidosos ao meu respeito, e muito menos me venha com sermões, hipóteses filosóficas ou conselhos bem intencionados. Só desejo um silêncio confortável e sinto carência de contato humano, físico e real, talvez através de abraço e um olhar amigo.

Para onde olho enxergo anúncios natalinos, festas e expectativas disfarçando anseios profundos. Natal é o beijo apaixonado da Esperança e da Tristeza. O beijo dessas amantes me apresenta uma época nostálgica e feliz, caótica e hipócrita. Não sei se neste ano as luzes brilharão para mim. Me pergunto se o menino Jesus nascerá mais uma vez em meu coração e, como em uma sarça ardente, trará uma esperança forte, de fogo que não apaga ainda que os ventos insistam em instigar.
É, viver requer coragem, Riobaldo. O que é que vale e o que é que não vale? Tudo. Só desejo a mim, enquanto escrevo, um pouco mais de força e arte. Essa arte-forma de encarar a vida, que me faz amar a abraçar a própria tristeza, dizendo-a: sente-se aqui, vamos conversar. Quer café?
Fazer as pazes com nosso caos é abrandar o medo que existe em nós. Sabendo que ele está ali sim, e que olhá-lo, ainda que de soslaio, não mata. A verdade liberta. A liberdade dói. A dor nos ensina a viver. Com o tempo encontrarei as respostas que procuro. Ou não. Os porquês parecem distantes de serem entendidos. As respostas talvez não venham, e ainda assim convoco meu ser a cantar e a sorrir.

— K.

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