Aniversário

“Você também escuta vozes?”, perguntei. “Elas me revelam coisas, algumas bem tristes”. E então quiseram saber que grandes revelações eram estas. Decidi calar porque muita coisa perde seu sentido original assim que tentamos explicá-las. Julgaram-me louca. Talvez eu seja ou, apenas perdi a vontade de explicar o que penso ao mundo. Quando o faço, sinto que as palavras vão ficando vazias… até sumirem de minha garganta. Penso em quantas oportunidades estou desperdiçando com isso. Há muito a se dizer… e tão mais a que se ouvir.

No momento não me sai da cabeça o seguinte questionamento: será que verei os rostos que amo vivos no próximo aniversário? Me assusta muito pensar em ossos abaixo da terra. Ao mesmo tempo procuro confortar meu coração, dizendo-lhe que tudo bem se sentir só, triste ou de luto, desde que eu consiga encontrar um caminho florido no meio de todo esse pedregulho. Mas temo tanto perecer na escuridão. Observo os rostos idosos de meus pais, e só ao compará-los com fotos antigas que noto o quanto o tempo passou… Acho que são lindos rostos, gosto de vê-los dormir ou gravar na memória as rugas formadas a cada riso. São como lindos bebês. Nunca fui de pensar no passado, mas espero que futuramente todas essas imagens que gravo no dia a dia não sejam esquecidas e eu seja capaz de narrá-las sem me confundir. Que meu eu do futuro lembre de cada história contada por eles, pois seria imensamente triste esquecer e não ter a quem perguntar.

Talvez a solidão seja o grande monstro atrás da porta, que me observa através da fechadura com seus olhos cinzentos e frios. O monstro que me observa desde a infância. Será que é seguro abrir a porta? Não tenho a chave, porém sei que algum dia ela se abrirá e irei me deparar com mortes, velórios, cemitérios, fotos e perfumes que me farão querer desistir. As roupas que ficarão, as receitas, os pêsames declarados nas redes sociais, os documentos e infinitas papeladas para resolver e pagar… como cuidarei de todos os gatos? Kiko só come quando meu pai lhe serve. Mimi chama por minha mãe todos os dias às 2h para comer peito de frango temperado. A rotina de todos nós será rasgada. Esta rotina que tanto amo.

Meus pais se perguntam se um dia eu lhes darei um neto e se todos nós nos sentaremos à mesa num dia de domingo. Há tempo? É um mistério e provavelmente não é sábio ficar especulando. Lembro que esse foi meu primeiro e único pedido ao Papai Noel, nos meus 8 anos. Uma casa com jardim, gatos e toda minha família, para sempre. Mas o para sempre ainda não houve. E se a única companhia que eu tiver nessa mesa gigante for minha sombra tal qual o poema de F. Pessoa? Não me imagino com filhos ou com um companheiro que escolha dividir o futuro ao meu lado. Acho que não sou alguém que dá orgulho às pessoas, por essa causa estou tentando fazer algo de significativo para elas e por elas. Me abri mais pra vida e constantemente estou disposta a mudar de planos e segurar o que está diante de meu nariz. O cansaço trará alguns frutos bons.

Evito pensar tão longe e nunca estive tão abraçada ao presente como estou hoje. Me considero uma pessoa simples, sem muita densidade. Escolhi ser esse tipo de pessoa, comum, sem grandes obsessões e que tenta equilibrar o lado sonhador e viajante de ideias imensas. Digo a mim mesma: está tudo bem enquanto você puder se inspirar ao ver o céu, enquanto puder sorrir para um desconhecido na rua, enquanto respirar, amar e chorar com sinceridade.

Quando os hebreus estavam exilados na Babilônia às vezes cantavam e tocavam seus instrumentos, para que não esquecessem das tradições de seus antepassados. Contudo, alguns dias eram mais tristes que outros e, nesses tempos piores, as harpas e tambores ficavam pendurados nos salgueiros, enchendo-se de poeira. E então eles se sentavam à beira da margem de um rio ali perto e lamentavam, sonhando com dias melhores, chorando pelos mortos e lembrando do passado. Não havia música que os consolassem, apenas o marulho do rio e a saudade de casa. Os opressores pediam para que cantassem, como quem zomba de um soldado ferido. E o que entendo disso é que há tempos bons e maus e ambos são importantes para nosso crescimento. Há um detalhe especial que só a melancolia nos faz entender: o valor de um sorriso, de um abraço e de um teto sobre nossas cabeças.

Não precisamos conquistar o mundo se já somos queridos por meia dúzia de pessoas. Só há um caminho e este começa quando fazemos as pazes com o presente. Sou muito grata por tudo e todos que cruzaram meu caminho.

– K.

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