O conto de Toni

Como criança comum, Toni não se destacava no meio da multidão, ainda que guardasse um segredo que apenas seu amigo Pôlo, o gato, conhecia.

Naquele dia, como tantas outras crianças de sua idade, Toni observava a vitrine de uma loja de brinquedos. Mas não se enganem, ele não queria brinquedos ou jogos, estava apenas admirado com o que acabara de ver. Se fosse um homem peludo, como os que já vira,  estaria todo arrepiado, mas era de sangue indígena e não possuía outros pêlos no corpo além dos negros cabelos lisos que cobriam suas orelhas e pendiam sobre a testa.

O que ele viu não foi coisa inventada. Os brinquedos realmente lhe sorriam e era claramente observável as piscadelas naqueles olhos de madeira. Toni estava boquiaberto, pois pensava que apenas a natureza falasse e, mesmo que apontasse para a novidade, sua mãe não lhe dava a atenção devida. A inocente senhora se convencera de que o filho insistia em ser presenteado com um boneco que custava muito acima da renda mensal — bobagens que adultos pensam ao toparem com situações diferenciadas — e declarou triste da vida que Papai e Mamãe não tinham condições de comprar aquele brinquedo.

Foram embora dali, ainda que Toni insistisse em apontar, ansioso, as gracinhas feitas pelo ser inanimado.

I.

Não se sabe quando as visagens de Toni tiveram início, apenas que eram das fortes, daquelas que martelam o coração e anulam o desejo de brincar e subir em árvores. Foi desde aquele dia que Toni sentiu-se diferente, com embrulhos no estômago e sapos na garganta.

Ele perguntara à Mamãe a razão das árvores do bosque terem sido todas cortadas por aqueles homens diferentes. Há dias pensava em questioná-la e sua cabecinha já não suportava tamanha curiosidade. Pensava e pensava, dia após dia, na razão por trás daquela destruição. Sabia que havia algo muito errado acontecendo.

Não demorou a decepcionar-se com a pobre resposta. “Vão vender as madeiras, elas custam um bocado de dinheiro, são madeira boa”. Que tipo de resposta era aquela?

Toni estava no primeiro ano escolar. Não entendia o mundo, mas tentava, ainda que falhasse aos montes!

Decidido a obter resposta satisfatória, partiu a investigar por conta própria, fazendo uso de seu talento de observador.
No caminho da escola notava o quão vazio e silencioso o caminho se tornou. A floresta estava despida, órfã e entristecida. Parecia cobrar satisfação e jurar vingança a quem roubou-lhe o filho. Toni ansiava por descobrir o que havia desaparecido.

Para sua surpresa, certo dia, encontrou Papai com um machado no ombro à caminho do bosque. Tomando o mesmo caminho, escondido entre moitas, investigou. Uma dor alfinetou seu pequeno coração. Papai era matador de bosques!

II.

E então tiveram início as visagens.
As formigas cochichavam e as plantas tremiam, não pelo vento, mas de medo. A terra parecia vibrar e gritava impropérios. O rio também já não era o mesmo. Toni desejava como nunca encontrar caipora e perguntar sobre a dor da Floresta. Mas caipora não precisava vir, ante os cochichos de insetos que entregaram os culpados: homens brancos que vieram de longe.

Foi uma tarde de febre alta, que o seguiu até altas horas da noite. Toni, ansioso, esperava que Papai retornasse do Bosque para ouvir uma explicação justa e assim acalmar-se. Porém, não foi o que ocorreu. Papai chegou cansado, macambúzio, trazendo consigo batatas, feijão e algumas moedas. Mamãe levou a mão à cabeça e seguiu-se o silêncio. Silêncio este que foi rompido pela seguinte pergunta: “Papai, o senhor está ajudando os homens brancos a matarem a Floresta?”

É melhor que o leitor não tome conhecimento do desenrolar das cenas seguintes. Saiba apenas que Toni estava de castigo e proibido de passar pela estrada do Bosque. Para ir à escola, precisaria pegar o atalho do Rio.

No dia do atalho, Toni teve sua segunda visagem, e não era ninguém menos que o uirapuru lhe chamando. Este cumprimentou a criança com um menear da cabeça vermelha. Talvez fosse sinal de sorte e boa coisa, ou…

Toni perguntou-lhe o que estava acontecendo com a Floresta e chorou ao pensar no Papai.  Uirapuru apenas cantou, o canto mais triste que Toni ouvira. Uirapuru também estava pesaroso e não veio para trazer boas notícias. Toni chegou a pensar que o pássaro lhe realizaria um desejo, mas estava errado. Uirapuru queria sua ajuda, e toda a mata parecia concordar com aquilo. Então o menino teve uma ideia e no anoitecer começou a execução de seu plano.

Ele encheu os bolsos e esperou a noite chegar. Levou a lamparina consigo, embrenhando-se na floresta que tanto amava e conhecia como a palma da mão. Não queria desobedecer, por isso pegou o caminho mais longo até o Bosque, sem que precisasse pôr os pés na estrada. 

Ao chegar na clareira, antes tão repleta de vegetação, sentiu-se ainda mais determinado. Olhou para o céu e pediu a bênção de Jaci, única testemunha daquele momento, e começou a trabalhar. No lugar de cada árvore cortada Toni cavou buracos e jogou sementes. A árdua tarefa seguiu-se até o amanhecer de chuva forte.

Toni estava faminto e ainda não havia voltado para casa. Abrigou-se na tenda dos lenhadores e, ao nascer do sol, pôde ver o que a tenda escondia. Machados, serras e equipamentos estranhos e repleto de dentes que Toni nunca antes vira. Ele decidiu que o melhor seria matar o mal pela raiz, então arrastou o maior número possível de ferramentas até o Rio, que pareceu confuso com a oferenda, mas se comprometeu em escondê-las no fundo de suas águas. Toni repetiu o percurso infinitas vezes e a chuva era a sua aliada, pois assim, nem papai e nem os homens brancos o pegariam com a boca na botija.

A tenda ficou vazia. Até as cordas e as botas de trabalho deram sumiço. A amiga Chuva cuidou de apagar os rastros no chão e desculpou-se pelo inconveniente.

Quando retornou ao lar, Toni estava encharcado. Sabendo disso, o amigo Vento mostrou-se útil e resolveu secar o menino antes que este entrasse de fininho pela janela.

Toni dormiu, e na mesma manhã acordou de sobressalto com a agitação dos pais e do restante da aldeia. Coisas muito misteriosas aconteceram na noite passada e o serviço dos homens brancos ficaria parado na próxima semanas, por conta de imprevistos.

III.

Toni pensava estar fazendo um bem, mas Papai parecia mais triste do que o menino. Por que ele se sentia assim? Agora estava livre, não era mais obrigado a trabalhar com os matadores. E ainda assim…. nada parecia se encaixar.

Uma semana depois Toni fica sabendo que seus pais, ele e boa parte da aldeia, se mudariam para a cidade. Segundo papai, estavam em tempo de pesca farta e na cidade poderiam viver melhor — um mistério, já que ali a Mãe Natureza lhes dava tudo o que precisavam.

E assim começou a jornada de Toni longe do lar.

Diferente de sua casa na aldeia, com apenas uma repartição, esta tinha três, além de um banheiro diferente e lamparina que acende ao toque de um botão na parede. Mamãe passeou com ele no segundo dia. As casas eram coloridas e pareciam flutuar sobre o rio de águas negras. Foi quando Toni avistou a vitrine e descobriu que mesmo longe de casa continuava a sofrer de visagens. Desta vez não os animais ou árvores mas seres inanimados e sorridentes, que estavam dispostos a ajudar o garoto a ajustar-se no novo lar.

Agora Toni sentia falta de sua casa, e embora o rio de águas negras fosse um ótimo local para nadar, ainda não se comparava com o Rio que lhe foi cúmplice. Havia uma estrada ali, e dia após dia vários caminhões chegavam à cidade carregando toneladas de madeira. Toni se perguntava se essas madeiras, suas irmãs, foram as que um dia lhes deram sombra e sentiu-se triste por elas. Todos os dias, de sua janela, observava aqueles caminhões, até que um grupo de pessoas chegou à cidade e ergueu uma espécie de palanque na pracinha. Eles diziam que forasteiros, com ajuda de moradores, estavam atacando nossas árvores, cortando e abrindo espaço para a pecuária. Diziam que era proibido desmatar para o plantio de soja, mas não era contra a lei desmatar para essa tal pecuária. Sendo assim, o esquema era bem simples: a pecuária ocupava o local desmatado, pois era permitido, e depois de um tempo a soja chegava e “empurrava” a pecuária para as partes ainda não desmatadas, tomando assim seu espaço. O grupo de pessoas afirmava que esse era um modo “esperto” de burlar a lei e destruir cada pedacinho de nossas florestas. No fim, não havia lei.

O terror cresceu no coração da pequena criança quando, mesmo sem entender uma só palavra do que ouviu, ficou sabendo que muitos animais estava morrendo, além de doenças estarem de espalhando pelas aldeias. Toni imaginou como seria triste não mais ouvir o canto do uirapuru.

IV.

O grupo de pessoas intitulando-se “ativistas”, andavam de casa em casa falando coisas e pedindo apoio. Alguns carregavam um objeto estranho em cima do ombro, com um círculo de cristal escuro na parte mais fina. Apontavam esses objetos para as pessoas e pediam para que elas falassem de suas vidas depois da chegada do homem branco. 

Certo dia uma fumaça foi vista de longe. No fim da estrada algo incendiava e quando todos correram para ver descobriram que era um automóvel dos ativistas. Alguns corriam, colocavam a mão da cabeça e outros tentavam apagar usando baldes. Toni soube que ali havia “materiais importantes” e por razões desconhecidas não conteve as lágrimas. Um tempo depois um boato se espalhou: madeireiros haviam ajudado vários pais de família a não perderem seus empregos. Eles provocaram o incêndio e agora tudo ficaria bem.

Foi aí que Toni ouviu a voz do rio. Ele o atraiu para perto numa noite de lua crescente e disse em um doce marulhar: não chore, doce menino.
“Por quê atacam nossos irmãos? Para onde vou ouço o choro de todos, da terra, dos animais e de toda a Mãe Natureza. Papai disse que a colheita já não é como antes e para sobrevivermos ele teve de vender seu orgulho para os homens de terras longínquas. Acho que nossa Floresta não tem mais a proteção de Tupã. Os bichos sumiram e mal ouço os gritos dos bugios.”

O rio nada falou. Apenas refletiu a lua e algumas estrelas em suas águas. Não pôde impedir a dor da criança.
Toni olhou profundamente para aquelas águas e deitou-se em sua margem. 

Ali adormeceu.

Na manhã seguinte Mamãe, Papai e todos os novos vizinhos procuraram por Toni, não encontrando-o em lugar algum. Foi assim naquele dia, naquela semana e nos próximos meses. A mata estava em silêncio e a estrada continuava a levar para longe os remanescentes vestígios de vida.

Quem sabe fora fazer companhia ao último uirapuru.

— K.

29.05.19

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